A fotografia ambiental de Soliane Corrêa

16:24

     A fotografia é uma das únicas artes que consegue transitar em todas as áreas, é uma forma de comunicação universal e ela não ficaria de fora da questão ambiental. Ela pode ser usada em caráter científico e educacional, ou então como jornalística e ativista. 

O fotógrafo documental João Farkas, que passou muitos anos fotografando o Pantanal, em seu último trabalho declarou que fazia isso para tornar as pessoas mais próximas do Pantanal e para que o bioma se tornasse mais próximo Brasil. 

E é isso que a entrevistada de hoje do Verdeante busca fazer com suas fotos incríveis da região onde mora, na cidade de Anastácio no Mato Grosso do Sul, onde é o "portal do Pantanal" (uma área de introdução ao bioma) e outra parte de Cerrado, uma mistura única de biomas também únicos que só vemos no Brasil.

A Soliane Corrêa, ou Soli, tem 16 anos e enquanto cursa o ensino médio e técnico em edificações, e pensa em fazer biologia na faculdade, ama "sair fotografando da maneira que vejo e junto com isso vou aprendendo mais sobre, me instiga a conhecer mais". Ela não registra apenas a beleza, mas estuda sobre ela e estende seu conhecimento às pessoas que acompanham suas fotos no Instagram @solyhx.

Como surgiu seu interesse pela fotografia? E quando você começou a estudar a fauna?

                    "Sempre gostei de fotografia, mas posso dizer que esse gosto despertou em 2018, quando meu pai comprou uma chácara aqui na minha cidade, onde o contato com a natureza era bem maior do que na cidade, então comecei tirando foto do por sol... foi indo comecei a prestar atenção nos detalhes em volta... na vida que tinha em volta, sabe? Tudo. Quando comprei uma câmera foi em 2019 e em 2020 foi onde foquei totalmente na vida selvagem daqui. Onde eu moro é o Portal do Pantanal, é a biodiversidade é riquíssima, tem muitas espécies fantásticas, algumas endêmicas que só ocorre no bioma."

Essa relação com a natureza, você acha que veio desde a infância ou também começou após esse maior contato com o sítio?

                    "Desde da infância, minha mãe cursou biologia e quando tinha eventos ela sempre me levava, eu ficava encantada. O contato com o sítio me incentivou a registrar e compartilhar. E postando essas fotos, elas chegam em pessoas que não veem isso no dia a dia, muitas não tem nem tempo de prestar atenção na vida que tem em volta."

E eu sempre vejo que você coloca os nomes científicos da espécie que fotografou, o que é muito mais didático. Tudo isso você pesquisa por gosto mesmo?

                    "Eu pretendo fazer biologia quando me formar do ensino médio, eu gosto muito dos nomes científicos porque as aves dependendo da região tem vários nomes populares, colocando o nome científico a pessoa que está vendo pode pesquisar diretamente e tirar dúvidas caso ela se interesse. Eu pesquiso os nomes através de um site chamado Wiki Aves, tem informações sobre tudo e também pode postar seus registros, ajudando a monitorar as regiões onde elas estão. Mas isso também inclui outros animais, ajuda melhor na identificação."

É muito legal isso que você tá falando, porque é uma questão de mostrar que você não precisa estar em uma faculdade pra começar a pesquisar e estudar sobre um assunto. Claro que na faculdade você vai ver muitas outras coisas e ter muito mais base, mas como estudante de ensino médio, alguém de fora desse mundo acadêmico, por suas pesquisas você acaba conhecendo muito mais.

Você já comentou sobre o site Wiki Aves, mas você tem algum livro favorito sobre biodiversidade ou fauna, que você acredita que tenha te ajudado e inspirado? 

                    "Sim! Tem um livro, onde mostra fotografias incríveis e nelas tem descrições falando sobre, isso influenciou muito! Foi um presente de uma professora do curso de biologia da faculdade. "Diamantes Verdes: Reservas Naturais do Mato Grosso do Sul", foi uma grande inspiração."

E falando nisso, você acha que a questão de ter uma fotografia pra mostrar, tem um impacto maior nas pessoas quando se trata de promover uma educação ambiental?

                    "Sim, através da fotografia você mostra a presença no ambiente. Por exemplo se formos falar de tráfico de animais, mostrando fotografias deles livres na natureza e comparando com fotos deles em cativeiros é uma tristeza, acho que toca mais a pessoa, sabe?" 

É um meio de chegar nas pessoas, de aproximar mais elas né?

                    "Sim!"

E sobre o lugar em que você mora ou no sítio mesmo, você vê situações de desmatamento ou questões que agridem a natureza, os animais?

                    "Sim, infelizmente, nas rodovias sempre tem algum animal morto e também tem a questão do desmatamento para fazerem pasto para gados. As vezes a população também descarta lixo nas estradas dos sítios... até mesmo na cidade, e creio que isso também agride a natureza e pode ocorrer de algum animal ingerir."

E como você vê isso?
(eu pergunto porque sempre que via coisas do tipo, animais atropelados e etc, mesmo eu não sendo da área rural, mas quando via nas estradas, eu ficava muito mal)

                    "Também fico muito mal, acho que se tivesse influência do governo pra criarem passagens que visam a diminuição dos atropelamentos já seria um começo. No caso dos lixos descartados de forma errada, creio que resolveria conteúdos com educação ambiental, ainda mais hoje em dia em que a maioria tem acesso a internet ou até mesmo em televisão."

(As passagens de fauna que a Soli está citando, é um projeto que visa a construção de túneis abaixo das rodovias ou grandes pontes acima para que os animais tenham um espaço unicamente para eles, sem precisarem competir com os carros nas estradas e sofrerem atropelamento. Esse projeto foi iniciado pela bióloga brasileira Fernanda Abra, especialista em ecologia de estradas, reconhecida e premiada internacionalmente pela iniciativa.)

Você disse que tem muito desmatamento pra abrir pastos, sempre acontece isso? Não tem fiscalizações?

                    "Olha eu vejo bastante em, mas os que vejo são legalizados, o proprietário tem que deixar uma certa área intacta e dependendo da espécie de árvore também não pode ser arrancada. Mas quando você olha a área com gado pra área intacta da diferença, fica uma paisagem modificada."

E você sabe que prática que eles usam, se é do fogo controlado ou do arrastão mesmo? 

                    "Acho que eles usam os dois, quando já está arrancado, eles juntam e colocam fogo (só quando autorizado pela prefeitura normalmente)."

E quando acontece isso, se você já presenciou e como você observa bastante os pássaros, você vê alguma movimentação diferente dos animais na região? Ou se isso afeta eles de alguma maneira?

                    "Não, não presenciei mas deve afetar sim, principalmente as aves que fazem ninhos nas árvores e também as cobras, que não conseguem ir tão rápido quanto ao fogo, perdendo seu habitat. Em locais assim tem muito uma ave que aproveita dessa "queima" de cobras. O Carcará, muito comum em áreas assim."

Sério? Eu sempre vejo eles por aqui na cidade onde estudo, mas não sabia que eles se aproveitavam dessa queima. Eles se alimentam das cobras queimadas? 

                    "Sim, de cobras, de outras aves como por exemplo a Caturrita. Filhotes também. Vejo bastante deles na parte da tarde."

Você pode me falar alguns pássaros endêmicos daí?

                    "Aracuã-do-pantanal, Gralha-do-Pantanal, são algumas que só ocorre aqui. E o Periquito-de-cabeça-preta, apesar de ser chamado também de "Príncipe do Pantanal", ocorre também em outros países com alguns registros no Paraguai e Bolívia."

Gralha-cinza ou Gralha-do-pantanal. Foto de Soliane Corrêa.
Periquito-de-cabeça-preta ou "príncipe do Pantanal". Foto de Soliane Corrêa.
Aracauã-do-pantanal e uma Arara Azul, em um comedouro aberto para pássaros. Foto de Soliane Corrêa.


E você acha que a fotografia te ajudou em alguma coisa? Seja na questão ambiental, na compreensão dos problemas que existem, ou em alguma outra área?

                    "Com certeza, a compreender melhor a natureza e a vida, é algo surreal, o contato sabe? Te dá vontade de estar ali mais vezes. Também me trouxe certeza da faculdade que quero fazer e chegando lá irei escolher uma área pra focar nisso, trabalhando na conscientização da população com projetos e tudo isso, querer mudar certas questões, né? Algumas são prejudiciais ao meio ambiente. Tentar converter a uma forma mais sustentável." 

Você acha que já olha pros problemas ambientais buscando por uma solução?

                    "Fico bem pensativa, mas eu tento. Não chego em uma conclusão."

Nem sempre a gente chega, é tudo complexo, mas acho que a fotografia nos ajuda a perceber mais os detalhes das coisas e acho que isso nos ajuda a pensar mais. 

                    "Concordo."

E você indicaria alguma música que sempre está com você e que você pensa nela quando está fotografando?

                    "Sobre música, eu amo! Mas quando estou fotografando o que me vem em mente são as poesias do Manoel de Barros, um grande poeta que representou o Pantanal em seus poemas: 

“No Pantanal ninguém pode passar régua.
Sobremuito quando chove.
A régua é existidura de limite.
E o Pantanal não tem limites”.

Manoel de Barros é incrível!

                    "É incrível o que ele fez, ele escreveu as belezas do Pantanal, os pequenos detalhes de forma tão fantástica."

Qual sua poesia favorita dele?

                    "O nome é "Gratuidade das Aves e dos Lírios, por Manoel de Barros".

"Sempre que a gratuidade ousa em minhas palavras,
elas são abençoadas por pássaros e por lírios. 
Os pássaros conduzem o homem para o azul,
para as águas, para as árvores e para o amor. 
Ser escolhido por um pássaro para ser a árvore dele:
eis o orgulho de uma árvore. 
Ser ferido de silêncio pelo vôo dos pássaros:
eis o esplendor do silêncio. 
Ser escolhido pelas garças para ser o rio delas:
eis a vaidade dos rios. 
Por outro lado, o orgulho dos brejos é o de serem escolhidos
por lírios que lhes entregarão a inocência. 
(Sei entrementes que a ciência faz cópia de ovelhas, que a ciência produz seres em vidros -louvo a ciência por seus benefícios à humanidade, mas não concordo que a ciência não se aplique em produzir encantamentos.) 
Por quê não medir, por exemplo, a extensão do exílio das cigarras? 
Por quê não medir a relação de amor que os pássaros tem com as brisas da manhã? 
Por quê não medir a amorosa penetração das chuvas no dentro da terra? 
Eu queria aprofundar o que não sei, como fazem os cientistas, mas só na área dos encantamentos. 
Queria que um ferrolho fechasse o meu silêncio,
para eu sentir melhor as coisas incriadas. 
Queria poder ouvir as conchas quando elas se desprendem da existência. 
Queria descobrir por quê os pássaros escolhem a amplidão para viver
enquanto os homens escolhem ficar encerrados em suas paredes. 
Sou leso em tratar com máquina; mas inventei, para meu gasto,
um Aferidor de Encantamentos. 
Queria medir os encantos que existem nas coisas sem importância. 
Eu descobri que o sol, o mar, as árvores e os arrebóis são mais enriquecidos pelos pássaros do que pelos homens. 
Eu descobri, com o meu Aferidor de Encantamentos, que as violetas e as rosas e as acácias são mais filiadas dos pássaros do que os cientistas. 
Porque eu entendo, desde a minha pobre percepção, que o vencedor, no fim das contas, é aquele que atinge o inútil dos pássaros e dos lírios do campo. 
Ah, que estas palavras gratuitas possam agora servir de abrigo para todos os pássaros do mundo."

E não há nada melhor que encerrar esse post com o próprio poema de Manoel de Barros e a indicação para que você acompanhe o trabalho da Soli em seu Instagram @solyhx, vale muito à pena!

Esse post faz parte da série "Ativismo Criativo" (ou Artevismo) do Verdeante, que mostra como diferentes tipos de arte podem atuar a favor da pauta socio-ambiental, e para entender mais sobre isso você pode acessar as postagens anteriores:

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