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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Realidade preta e branca

Você hoje acordou com o pé esquerdo, bateu o dedinho na quina da cama e já sentiu que tudo daria errado. Esteve de mau humor, fechou a cara, decidiu não sorrir para ninguém, claro, você não é obrigado a estar bem todos os dias. Você não pôde almoçar no McDonalds hoje porque a fila estava gigante e você já estava atrasado, reclamou da atendente que era lenta, dos carros que faziam o trânsito, do metrô cheio, dos clientes, do governo atual, do panfleto que te entregaram na rua, do cachorro que latiu, do celular que tocou na hora errada e até mesmo da borboleta desatenta que voava na sua direção, como se ela tivesse culpa do seu mau humor diário. Andou olhando para o chão, não levantou o olhar para o céu em nenhum momento do teu dia. Preocupou-se em olhar mais para a tela do seu celular do que para as pessoas ao seu redor, para o mundo que o cerca. Você perdeu horas no Facebook tentando ver como a vida dos outros é mais interessante que a sua. Você se inutilizou sendo triste, deixando os outros tristes, sendo egoísta. Já disse uma vez Renato Russo: "Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação, serão noites inteiras, talvez por medo da escuridão, ficaremos acordados, imaginando alguma solução, pra que esse nosso egoísmo não destrua nosso coração". Espero que ele ainda não tenha destruído o seu.

Eu nunca havia fotografado em preto e branco, mas inspirada por Sebastião Salgado, o renomado fotojornalista, decidi tentar. As fotos não estavam saindo como eu queria, me irritei logo de cara por não estar me achando naquele mar sem cores, mas então, lembrei de uma frase de Robert Capa, dizendo que o que faz a foto às vezes nem é sua "perfeição" na resolução ou no foco ou no enquadramento, mas o que faz a foto, antes de tudo, é momento. E por um momento, me deparei com essa cena do meu lado. Primeiro, tive vergonha de levantar a câmera e apontar pra ela, mas eu sabia que precisava fotografá-la, sabia que precisava dizer que ela não é a única. Existem milhares de "pessoas invisíveis" como ela, que ficam sentadas nas calçadas carregando suas histórias que são ignoradas por nós. É fácil generalizar, dizer que "não trabalha porque não quer", "ta na rua porque bebe", mas é difícil saber a história de cada um. Você não sabe o porquê daquela pessoa estar ali, você não tem nada que te faça melhor que ela, você não é melhor que ela, e por que age como se fosse?

Um comentário:

De Crazy disse...

Clara, que lindo esse texto...hj pra vc saber acordei do jeito que vc falou..parece que me perdi no mar de problemas..mas problemas que eu mesmo construi, ou deixei acontecer. E ai me afoguei. E lendo seu texto em fez ver que meu problemas que tanto não me deixa dormir não é nada em frente aos problemas dessa moça registrada em sua foto.
Parabéns, pelo texto e pelo belo registro *-*
Um Beijo enorme!