Entrevista com Renan Narvais: Artivismo ou Ativismo Criativo ou nada disso?

12:08

     O ativismo criativo ou artístico é o uso da arte como forma de protesto político e social. Isso envolve a tentativa de mudar as condições de vida em áreas subdesenvolvidas, levantar questionamentos ecológicos, levar acesso à educação e cultura à quem não o tem, atrair atenção para questões diversas, desde trabalhistas até imigrantes. O ativismo artístico envolve até mesmo críticas ao próprio meio da arte e suas galerias um tanto quanto classicistas.

Os artistas envolvidos nesse meio, não visam simplesmente criticar o sistema ou as ações às quais são contra, mas querem atuar e provocar mudanças por meio da arte, seja pela conscientização das pessoas que admiram suas obras ou então por ações diretas.

"Os artistas ativistas querem ser úteis, mudar o mundo, tornar o mundo um lugar melhor – mas, ao mesmo tempo, eles não querem deixar de ser artistas." - Groys, B. 2017.

Eu falei um pouco sobre isso na publicação passada sobre Dan Eldon e como sua vida foi voltada à fotografia e ao ativismo. E nas voltas que o mundo virtual dá, encontrei no Instagram um artista que não classifica sua arte como arte, mas "considero o que eu faço mais ligado ainda à um artesanato", e cedeu uma entrevista ao Verdeante.

Renan Narvais tem 25 anos, é de Osasco na grande São Paulo, cursou Design Gráfico e hoje se encontra nos desenhos críticos ao sistema que nos encontramos, principalmente em questão aos problemas ambientais. 

"Um rei que distorce a verdade para que sua realidade de mentiras seja menos banal. Maldito é o ser que se sente mais divino que qualquer outro animal". Arte por Renan Narvais em conjunto com seu irmão.

Em meio aos seus trabalhos de construção de uma mesa para desenho, pra melhorar sua dor nas costas, o Renan deu seu depoimento sobre como é ser um "artista ativista", como chegou à conclusão de usar sua arte para lidar com algo maior, e deu algumas boas dicas pra quem está nesse início.

Quando você começou a desenhar?

                    "Ixe, difícil. Sempre que penso nisso é uma das primeiras lembranças que tenho, muito pequeno mesmo, no pré. Sempre desenhava em alguma lição e essas coisas, pintava algumas telas também. Mas tipo, desenhar sério mesmo? Fazendo um resumo pra dar um contexto pra essa resposta na época do ensino médio estava na dúvida do que escolher de curso na faculdade, como sempre gostei de desenhar tentei pensar em algo na área. Acabei optando por design gráfico e não era tão aprofundando da parte de desenho que eu tanto imaginava. Depois de trancar o curso, quase no final, comecei a pintar umas camisetas e acabei fazendo algumas tatuagens de teste, depois disso resolvi seguir nesse caminho, Acho que isso foi em 2016. Mas sempre teve algumas fases, da pintura nas camisetas, na tatuagem, e com a pandemia resolvi focar mais nas pinturas mesmo. É um trabalho/hobby, até pq é difícil tirar uma quantia q posso ser considerado um salário."

E como essas fases anteriores (das camisetas e das tatuagens) te ajudaram a construir ou decidir mais pela pintura que faz hoje? Você acha que elas ajudaram?

                    "Com certeza, tudo que a gente vai fazendo e criando ajuda a construir algo próximo do seu estilo, a partir de vários testes. Sempre pegando um pouco do que mais gostou de cada trabalho. Isso caminha junto com o que a gente pensa e vai evoluindo esses pensamentos. Agora, tecnicamente falando, ajudou muito em relação à traço, deixar o desenho mais fluido, e algumas coisas do estilo você vai trazendo e adaptando dependendo da superfície que você pinta."

E uma coisa que eu vi nas suas artes, é que você trata muito de causas socioambientais neles. Por que?

                    "Acho que num geral a gente tenta expressar aquilo que mais pensa ou vive, de uns anos pra cá eu mudei totalmente meus hábitos e alimentação, isso vai abrindo sua cabeça e seu olho pra realidade. Hoje em dia na correria do dia a dia dificilmente as pessoas querem parar pra pensar no que tá acontecendo com o meio ambiente, acho importante deixar esses problemas mais a mostra pra chocar com a realidade que tenta disfarçar isso."

E por que você mudou seus hábitos e alimentação?

                "Na verdade foi uma mudança muito natural e extrema ao mesmo tempo, comecei parando de comer fast food e refrigerante, paguei raiva dessas coisas e de tudo que elas causam. Comecei a me interessar em plantar as coisas em casa e buscar essa auto suficiência. Aí depois que você muda um hábito acaba acontecendo um efeito dominó e busca sempre melhorar o que você pode fazer, da melhor maneira possível dentro da nossa realidade."

E como você começou a plantar as coisas em casa? Já tinha alguma experiência nisso ou foi curioso mesmo e começou a pesquisar?

                    "Pra falar a verdade eu só lembro de começar a fazer compostagem e aí comprei alguns vasos, plantava uns temperos e tomate no canto da garagem, depois coloquei eles no quintal. O tomate não estava indo muito bem, então resolvi tirar uma parte de grama do quintal e fazer um canteiro pra horta mesmo. Foi tudo bem na base do teste, assim como tudo que vou fazendo. Conforme ia aparecendo alguma coisa diferente, ou que não dava certo depois de algumas tentativas, eu dava uma pesquisada sobre."

A horta tá indo bem agora? E você tá plantando mais que tomate agora?

                    "Então, a horta está indo, às vezes fica bem devagar, geralmente o clima influência muito e a gente só percebe quando planta alguma coisa. Não estava crescendo nada, agora tá melhorando bastante. Como fiquei muito envolvido com uns desenhos e com a mesa agora não estou conseguindo dedicar muito tempo para fazer mudas e mexer na horta. Quando vai chegando outono/inverno metade do meu quintal fica na sombra, aí prejudica um dos canteiros, fica dependendo só de um mesmo. Agora está tendo bastante escarola, alguns alfaces, rúcula, os espinafres tão indo bem também, almeirão roxo, peixinho, batata doce que nasceu sozinha. Fora uns temperos, alecrim, orégano, salsa, cebolinha."

Então toda a sua arte mudou de certa forma quando você mudou seus hábitos? E seus hábitos mudaram por algum motivo em específico? Tipo alguma notícia que você viu e te chocou, ou alguma coisa que aconteceu? Ou você sempre teve essa consciência e aí de repente decidiu fazer algo diferente?

                    "Mas com certeza mudou, acho que chega um ponto e as ideias amadurecem muito. E aí juntou os hábitos com o momento em que eu estava mergulhando de cabeça no desenho. Foi evoluindo junto, e eu só desenho o que vivo e penso. Acho que quando era mais novo eu saía bastante, e sempre na roda de amigos tinha aquela agonia por ninguém estar fazendo o que gostava, estar preso em algum trabalho por obrigação e etc, e ao mesmo tempo usando coisas pra fugir dessa realidade. Conforme você vai vendo outras realidades e criando consciência das coisas, vai causando uma revolta que revoluciona o jeito de pensar. Aí tem a hora que você tem que arriscar viver preso nessa agonia ou partir pra algum lado. A única certeza é que essa agonia de fugir da realidade foi o ponto de partida pra mudar tudo."

Você considera que está fazendo um ativismo artístico?

                    "Puts, eu consigo enquadrar muito o que eu faço em alguma parada, mas muito menos com algo relacionado a arte, tenho um pouco de bloqueio com isso mesmo sabendo que teoricamente é isso. Acho que às vezes o termo arte deixa as coisas muito intocáveis, por todo contexto que se criou ao redor disso, os artistas ligados com a fama. Não sei explicar muito bem o que eu sinto em relação a isso mas eu só penso em desenhar pra passar uma mensagem e que essa mensagem tente despertar algo em quem está vendo. E como os problemas da sociedade sempre estão interligados, acaba caindo nessa ideia de ativismo, mas quanto mais a gente vai tachando o que faz, vai afunilando o público."

Então vou mudar um pouco a expressão, você considera que faz um ativismo criativo?

                    "Isso vai muito de pessoa pra pessoa, mas faz mais sentido sim. Tá mais no campo que eu penso, mas considero o que eu faço mais ligado ainda a um artesanato." 

Isso que você falou, me fez lembrar muito de alguns fotojornalistas de reportagem (que é uma área que eu entendo mais do que desenhos). Não é muito o quão bonito aquilo vai ficar ou vender pra alguém ou expor, é pra mostrar uma realidade que muita gente desconhece ou não quer ver. É mais ser movido por um senso crítico do que "função" ou recompensa, acha que é isso?

                        "Sim, exatamente essa ideia, eu até li esse último texto que vc fez sobre o fotojornalista. É pegar um ponto do cotidiano e deixar ele explícito para as pessoas refletirem, mostrar o que elas veem só que por um outro ponto de vista. A parte principal é causar um impacto que gere essa reflexão. Ninguém gosta de receber uma ideia imposta por um determinado ponto de vista, mas a partir do momento que a pessoa tem uma reflexão guiada pelo que você fez, é diferente e desperta ela para aquela ideia. Acho que é isso sim. O senso crítico é mais importante que o suporte em que ele está sendo usado. Sem senso crítico é só decoração pra agradar os olhos."

Então pra alguém que como você desenha, faz pinturas, e quer falar de questões socioambientais em suas artes, mas não sabe como fazer isso ainda, que dica você daria? Deve fazer algum estudo sobre ou...?

                    "Difícil também dar uma dica, tudo é tão relativo né?! Mas acho que o mais importante é viver o que você quer passar para as pessoas, respirar o que vc desenha, e as coisas vão saindo naturalmente. Mas a parte mais difícil e mais essencial é abrir bem o olho pra realidade, e encarar ela, por mais pesado chato que seja. É sempre importante estudar também, conforme as mudanças forem acontecendo, vai se abrindo para novos hábitos. A mudança tem que ser sempre pra melhor e sem voltar pro lugar que já estava, é aí que a gente vai vendo a evolução. E outra coisa que acho importante também, com toda essa coisa das redes sociais quem quer seguir isso a fundo é muito importante não ficar se comparando com outras pessoas que desenham também, seguir o estilo que você está fazendo naquele momento e experimentar de tudo."

E como eu comecei a entrevista pelo meio dela e pulei a parte inicial. Queria pedir agora que você se apresentasse, falasse um pouco de você, nome, idade, de onde é, qualquer coisa que achar interessante falar.

                    "Tá bom, não dá pra fugir dessa. Bom, meu nome é Renan, tenho 25 anos, sou de Osasco- SP e não sou ninguém na verdade. Eu sou o que você vê nos desenhos, essa que é a verdade. Difícil de explicar. Curto muito assistir desenho, tanto faz, pra criança ou adulto. Filme de animação sempre tem muita mensagem por trás e a gente se perde nas cores e esquece disso. Nos últimos tempos estou curtindo muito um que chama os Vizinhos Green. De pequeno eu gosto dos mais clássicos, Bob esponja, Os Simpsons, Charlie Brown também é bem dahora, mas mais deprê. Música eu tô numa fase bem longa de som nacional antigo, tentando conhecer umas bem perdidas. Um álbum que me inspirou em alguns desenhos foi um do Erasmo Carlos, Sonhos e Memórias. Jorge Ben, Tim Maia, escuto muito quando não sei o que quero escutar, vai bem em qualquer hora. "Nada como um dia após o outro dia" dos Racionais. É difícil quando umas músicas com letra pesada são atemporais, a gente vê que não mudou nada, mas não tira a generalidade do jeito que foi retratado." 


Uma de suas novas testagens é o desenho em vidro, mas o Renan também compartilhou muitas outras obras que vou postar aqui. E além disso, você pode segui-lo no Instagram, no @renanjc96.

Desenho em vidro.

Desenho baseado na história da Camélia, uma flor que virou símbolo da abolição da escravidão no Brasil. Pintado em um prato de barro feito artesanalmente.

Peixe Pirarucu, arte baseada em alguns fatos da cultura indígena, feito em algodão cru.

O presidente do Brasil e o desmatamento, tinta de parede em papel.

Desenhos em papel Paraná com tinta de parede.

Desenho em aquarela caseira.

"O ser que não alimenta o corpo e a alma com o que é preciso, pelo ego consome, e pelo ego é consumido", desenho feito por Renan Narvais e seu irmão.

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