Lavar as mãos com areia e ficar de quarentena na casa dos outros - COVID-19 e a periferia

18:46

Ordenar que lavemos as mãos várias vezes ao dia e as higienizemos com álcool em gel parece algo básico e simples para a maioria das pessoas, e as propagandas de medidas preventivas ao COVID-19 parecem até mesmo irritantes de tão repetitivas. Porém não é para todo mundo que a informação chega de maneira rápida como pra você ou pra mim, também não é para todo o Brasil que a água chega de maneira igual e límpida como acontece pra você e pra mim.
As favelas brasileiras sofrem nesse momento com, além da falta de informação menos problemática, a falta de esgoto e água tratadas. Não estou falando das grandes favelas que já se tornaram comunidades avançadas, pré-cidades, como Heliópolis que, apesar de tantos problemas enfrentados, se mantém bem como uma metrópole. Mas estou falando daqueles locais em que as casas existentes são barracos de madeira e que o esgoto à céu aberto predomina sem que as pessoas tenham opção de sair dali. Ao contrário do que o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, declarou esses dias quando o Rio enfrentava inundações, as pessoas não escolhem morar em áreas de risco para "economizar em encanamentos".

Se você não faz ideia de qual realidade estou falando, talvez as fotos de um cara que admiro e que você pode acompanhar nesse link.


As fotos apresentadas aí em cima são de Leonardo Desidério, "fotógrafo periférico com olhar favelado", como ele mesmo se intitula. 

A questão aqui que eu queria inicialmente falar e você pode estar achando que estou fugindo do assunto, é sobre o COVID-19 e a regra de lavarmos as mãos sempre que pudermos e passar álcool após tocar em qualquer coisa. São regras extremamente importantes e que devem ser seguidas, porém pessoas que moram em locais como esses que o Leonardo fotografa, não poderão ter os cuidados que você pode ter. Nem sempre tem água ali e a água que chega nem sempre é limpa - podemos ver um exemplo claro que é a água da CEDAE no Rio de Janeiro, recentemente contaminada por uma substância denominada geosmina, produzida por algas. E também temos os problemas dos potes de álcool em gel que estão se tornando ouro e o preço é inapropriado para qualquer pessoa, imagine para as pessoas da periferia. 

Essas mesmas pessoas provavelmente não poderão obedecer a quarentena proposta, pois elas precisam trabalhar, precisarão pegar transporte público e precisarão ter contato com todas as outras pessoas estejam doentes ou não. 

O título dessa publicação, "lavar as mãos com areia", é uma relação com como as mulheres lavam louças no Rajastão, por exemplo, pela escassez de água. E o "ficar de quarentena na casa dos outros" fala sobre como muitas pessoas já infectadas, ricas, não permitem que seus funcionários se afastem de seus trabalhos. 

A quarentena é necessária, porém é um privilégio. Se você tem esse privilégio, fique em casa e coopere para não contaminar pessoas que não possuem as mesmas oportunidades que você.

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