Dia da Amazônia, a floresta que chora

08:00

Amazônia tem maior número de queimadas em junho desde 2007 | VEJA
Foto de Paulo Vitale/Veja
Dia 5 de setembro é comemorado o dia da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, com a maior biodiversidade do planeta.

Hoje poderíamos comemorar junto à uma floresta preservada e apreciada, mas na verdade, a Amazônia chora pela falta de proteção e excesso de exploração advinda do interesse privado com permissão do governo (interesse público).

Em 2020, o desmatamento na Amazônia cresceu 34% se comparado ao ano anterior, 9,2 mil km² foram derrubados, enquanto ano passado foi 6,8 mil km² (é a segunda alta dentro do governo Bolsonaro). Esse desmatamento está intimamente ligado aos pecuaristas que não respeitam reservas legais, grilagem, exploração predatória de madeira, e tantas outras atividades ilegais que não possuem punição ou sequer fiscalização.

Mas é bom entendermos primeiro do que é constituída a Amazônia e quais os principais interesses nela. Começando pelos interesses:

1° Interesse agropecuário - se a ideia é derrubar a floresta para o plantio de qualquer cultura que seja, isso nunca dará certo. O solo da Amazônia é árido, muito pobre em nutrientes e só mantém aquela floresta da forma que mantém, pois a serra pilheira (matéria morta depositada pelas árvores sobre a superfície do solo) é quem garante nutrientes por meio da decomposição da matéria orgânica. Ou seja, a Amazônia é um ecossistema completamente único e vivo que atingiu seu clímax, que significa estar em completo controle e regulação por si mesma. Caso qualquer item que há compõe, como a vegetação, serra pilheira, toda a microbiota do solo, fauna, entre outros..., sejam descartados, nada mais funcionará e aquela área se tornará um completo deserto.

2° Interesse madeireiro - a floresta é um agente muito mais importante vivo do que morto, mais importante em pé do que derrubado. As madeiras das árvores existentes na Amazônia são exportadas para países que fecham os olhos e pagam mais barato por madeiras de alta qualidade, como o Ipê. Em 2019, o superintendente da PF no Amazonas, Alexandre Saraiva, afirmou ao site Brasil de Fato que "Sendo otimista, 90% da madeira que sai da Amazônia é ilegal" e mais, "A gente vê aquelas fraudes, aquelas coisas ruins que aconteceram na Mata Atlântica há 100 anos, estão acontecendo do mesmo jeito na Amazônia". 
As pessoas que compram tal madeira ilegal são do setor moveleiro, tanto nacional como internacional (europeu e norte-americano). Mas há também a extração para a queima em carvão, situação mil vezes mais poluidora pois todo o carbono que aquela árvore conteve em todo a sua vida, retorna ao ar.

(lembrando que Saraiva, ao depor sobre a suposta interferência de Jair Bolsonaro na PF, diz ter sido sondado para assumir o ministério do meio ambienta também, coisa que não saiu da sondagem pois talvez ele fizesse um trabalho melhor do que Ricardo Salles e isso não seria permitido por Bolsonaro)

Quanto à questão do que compõe a Amazônia:

  • Fauna e flora únicas, que podem ser perdidas pra nunca mais retornar;
  • Estoque de carbono, que se for desmatado voltará todo ao ar;
  • Rios voadores, que distribuem e regulam as chuvas não apenas do Brasil;
  • Reguladora térmica do clima;
  • Rios que correspondem à quase 1/5 de toda a água doce do planeta;
Estamos a ponto de chegarmos em um momento da Amazônia que é um ponto de inflexão, em que não será possível retornar ao seu estado normal e a perderemos, e todos os benefícios que vêm com ela. 

Com a Amazônia viva, a sua exploração econômica sustentável (por mais que eu ache que deveríamos apenas deixá-la em paz) é muito mais rentável e sustentável (coerente e não burra). Um exemplo disso é a produção de castanha, açaí, e cacau que possuem muito maior valor agregado e podem ser extraídos de maneira sustentável. Algo que já ocorre na produção do chocolate da marca De Mendes, que faz um trabalho social e ambiental, envolvendo comunidades nativas no processo produtivo, respeitando cultura e meio, com um viés totalmente justo tanto para com a floresta quanto para com o povo.

São iniciativas como essas que devemos manter na Amazônia, que devemos buscar e implantar, então só assim poderemos comemorar sobre o dia da floresta que chora por irresponsabilidade de terceiros.

Eu sinto muito, Amazônia, por não termos feito nem um terço do que deveríamos e por eu ter feito tão pouco quanto eu gostaria. Sinto muito pelas pessoas incompetentes que deveriam ter a competência para te proteger, algo afirmado em Constituição. Eu sinto muito por precisar comemorar seu dia em prantos e fogo.
Nós iremos melhorar isso. Nós te protegeremos.
"Só quando a última árvore tiver sido derrubada, o último rio tiver sido envenenado, o último peixe capturado é que vocês entenderão que não se pode comer o dinheiro." - Provérbio indígena

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