Os limites do planeta e a agricultura

12:00

    Em 2010, o cientista Johan Rockström apresentou em uma palestra as 4 pressões que a Terra tem sofrido e os limites planetários estabelecidos que estamos cruzando, o que promove a nossa caminhada instável para um buraco negro.

O planeta Terra está sendo pressionado por 4 fatores: 

  • Crescimento populacional;
  • Agenda climática (aumento de poluentes e favorecimento do efeito estufa, mudanças climáticas);
  • Declínio e perda de ecossistemas;
  • Surpresa (reação de ecossistemas de maneira abrupta, sem que possamos prever ou esperar).
E de acordo com Rockström, a agenda climática é o ponto mais fácil de lidar.

Quando olhamos um gráfico da vida, passando por toda a vida sem a humanidade até chegar ao Holoceno, todas as ações e feitos que realizamos (domesticar animais e plantas, parar de caçar e coletar, evoluirmos tecnologicamente), e focando nos últimos 200 anos, podemos ver que após a segunda guerra mundial, principalmente, ali na década de 50, tudo ligado ao desenvolvimento da civilização humana caminhando para a tecnologia e uma vida "melhor" economicamente, se elevou de maneira assustadora. Tudo a que me refiro, são todos os parâmetros ligados ao bem-estar da vida humana, como: emissão de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso; desmatamento; pesca predatória; degradação do solo; perda de espécies... Acho que fica claro que isso indica que estamos consumindo tudo e mais do que tudo. Estamos matando a Terra, o único planeta que temos para viver.

A questão é que essa mesma Terra que destruímos, é um sistema auto-regulador e interligado. O planeta é inteligente e resiliente, portanto ele aguentaria impactos. Porém, esses impactos deveriam estar dentro dos limites aceitáveis da resiliência planetária e nós estamos ultrapassando todos os limites.
Ultrapassar os limites significa modificar os estados estáveis dos sistemas que compõem o planeta, significa atrapalhar tanto um sistema, que ele não terá mais resiliência alguma e se modificará para sempre, morrendo completamente ou travando em um estado indesejado no qual surge novas espécies e sobrepõem aquelas já existentes. 

Para entender até que ponto podemos extrair ou nos aproveitar da Terra, sem promover a sua decadência, Rockström e outros autores, em 2009, publicaram o trabalho "Espaço seguro para operação humana" ("Safe operating space for humanity"), que apresenta nossos 9 limites e suas devidas quantificações (para aqueles possíveis de quantificar). São eles:

  • Degradação do ozônio estratosférico (camada de ozônio);
  • Mudanças climáticas;
  • Acidificação dos oceanos;
  • Perda da biodiversidade;
  • Mudança no sistema terrestre (uso da terra);
  • Interferência nos ciclos de Nitrogênio e Fósforo;
  • Consumo de água doce;
  • Poluição do ar (carregamento do ar com aerossóis);
  • Poluição química e novas entidades.
Bem, dentre todos esses limites, dois não foram possíveis de quantificar, são eles: a poluição do ar, pois o seu comportamento na atmosfera é muito variável e complexo de acordo com sua composição e local, e a poluição química, que ainda falta dados para determinar uma margem real, apesar de já ser notável os efeitos, como por exemplo compostos resistentes à degradação já causaram a redução da população de pássaro e prejudicou o desenvolvimento de mamíferos marinhos.

‘Agriculture production as a major driver of the Earth system exceeding planetary boundaries’, Campbell et al., published in the Journal Ecology and Society, 2017.

Na ilustração acima, é possível ver os limites que já cruzamos e a pontuação demonstra quais desses limites são afetados diretamente pela agricultura.

Tudo o que está em verde, indica que não ocorreu o cruzamento do limite estabelecido, o uso está sendo correto. O que está em amarelo, mostra que cruzamos o limite e estamos na zona de incerteza, de possível risco crescente. E o vermelho vai para além da zona de incerteza, é o risco altíssimo. 

Estar na zona vermelha desse gráfico indica um erro fatal da humanidade, indica que estamos usando mais do que deveríamos e estamos desequilibrando aquele sistema. Só que o problema é que um sistema é ligado ao outro, desequilibrando um deles, toda a fileira de dominó cairá, todos os sistemas serão desestabilizados.

Como vemos, a agricultura tem sido uma área determinante para a desestabilização, ao mesmo tempo que é totalmente necessária para alimentar a população existente no globo. Mas, a agricultura também é determinante para a correção de tudo isso e há solução, como:
  • o Sistema de Plantio Direto - plantio sobre a palhada, o que evita revolvimento do solo com arado (dispensa poluição do ar com mais diesel), e ainda mantém a microbiota do solo;
  • Controle Biológico - uso de inimigos naturais para controle de pragas que afetam a lavoura, evitando uso excessivo de inseticidas;
  • Jardins Polinizadores - jardins criados com uma vasta variedade de plantas voltadas para a alimentação de insetos importantíssimos na agricultura, como as abelhas que são muito afetadas pela monocultura;
  • Agroflorestas - produção de alimentos em harmonia com a natureza, utilizando de fatores naturais da floresta;
  • entre tantas outras opções.
O que precisamos entender é que onde há o problema, também é possível de retirar, do mesmo lugar, a solução. 

A agricultura pode ser ainda a solução e o controle dos limites planetários, mas para isso precisamos mudar completamente nossa forma de ver a situação em que estamos inseridos, precisamos mudar o pensamento, a governança de empresas privadas e públicas, e educar tanto o produtor quanto o consumidor.

Se quiser assistir a palestra completa de Johan Rockström, de 2010, veja aqui abaixo:

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